“Homens de Solas de Vento”, Cia. Solas de Vento

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7/10. Teatro sem palavras, baseado em gesto e expressão, com recursos do circo.

  • narrativa

Lembra O Terminal — o par de protagonistas também está travados em um aeroporto por conta de algum processo burocrático. Dentro dos limites em que estão, criam domesticidades provisórias. Os personagens se afetuam com o tempo, e acabam por povoar o próprio cotidiano com elementos do cotidiano do outro.

  • recursos

A estrutura circense de acrobacia — os trapézios e outros balanços — é relida com malas suspensas (uma à esquerda, outra à direita do palco, cada qual para um dos atores), uma vassoura amarrada por panos (de um lado), uma rede (do outro). Subir, quase cair, desabar, transitar de uma mala à outra: a cenografia dá chances de exibir as habilidades acrobáticas e fomenta pequenas cenas que perfilam os personagens e avançam a história (como a tragicomédia é toda suspensa no ar, me lembra “parece tão regular voltar pra jantar todos os dias, mesmo que eu sinta a mesa se equilibrar nos fios de alta tensão“). O uso da luz — o holofote pode isolar, a cada vez, um dos personagens para uma cena solo; o apagamento da luminosidade leva o olhar ao outro de imediato. Funciona como, no cinema, a alteração de foco entre frente e fundo. No fim, foi usado com ainda mais eficácia: um ator iluminado, outro de costas, na sombra; o segundo era só a mão burocrática, impaciente, impessoal.

  • acesso

Site Oficial

“Experiência 3”, Key Sawao

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9/10. 2015. Exibido no Itaú Cultural em 9/3/2017.

  • narrativa

Dançarina (Key Sawao) e baterista (Mariá Portugal) improvisam no palco. Por vezes, gesto e batida se encontram, por outras, divergem. O descompasso e o compasso entre ambos vai levando o espetáculo, conforme alterna a nossa atenção entre eles. Segundo a resenha do espetáculo, trata-se de “estudos de movimento” de Sawao.

  • recursos

Portugal cria tantos ritmos violentos, quebrados, que preenchem a sala silenciosa com tumulto quanto explora os ruídos inesperados do raspar de pratos, do batuque sem baquetas (como que mais flácido). Sawao pulsa, serpenteia, pára. A linha coreográfica abrange algumas repetições (que não chegam a ser constantes de fato), elementos ideográficos feitos de gesto, digamos, que emergem e voltam a emergir sem criar padrão. Ambas menos ou mais do que trazer sentidos demarcam, com corpo e instrumento, intensidades.

  • acesso

Vimeo (trecho)

Borderline

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[Penny Dreadful, 1ª temporada, episódio 2, “Séance“]

Uma cena que deu o peso exato ao Dorian Gray da série. Sua postura autodestrutiva e sua intimidade com a doença ficam imediatamente claras quando ele beija a menina que tosse sangue, por causa da tuberculosa. Sua vaidade transparece a cada vez que o flash da câmera fotográfica — nas mãos do fotógrafo contratado para registrar suas transas — estoura. Sua temeridade, a convicção de que nada lhe é proibido porque nada lhe pode atingir, de que pode experimentar tudo, é vívida nessa frase: “Eu nunca fodi uma criatura moribunda”. Mais um espécime para a sua subjetividade. Fico pensando que esse Dorian é mais interessante que o do livro…

Um Discurso sobre a Ciência

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O doutor Frankestein vê uma utilidade e um desafio científicos:

I would never chart a river or scale a peak to take its measure or plant a flag. There’s no point. It’s solipsistic self-aggrandizement. So too those scientists who study the planets seeking astronomical enlightenment for its own sake. The botanist studying the variegation of an Amazonian fern. The zoologist caught up in the endless fascination of an adder’s coils. And for what? Knowledge for itself alone? The elation of discovery? Plant your flag on the truth? There is only one worthy goal for scientific exploration piercing the tissue that separates life from death. Everything else, from the deep bottom of the sea to the top of the highest mountain on the farthest planet, is insignificant. Life and death, Sir Malcolm. The flicker that separates one from the other, fast as a bat’s wing, more beautiful than any sonnet. That is my river. That is my mountain. There I will plant my flag.

[Penny Dreadful, 1ª temporada, episódio 1, “Night Work“; script]

“Anelisa Sangrava Flores”, de Anderson Henrique

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O fantástico tem um prazo de validade? No livro de contos Anelisa Sangrava Flores, escrito pelo Anderson Henrique — mais ou menos como em “Teleco, o Coelhinho”, de Murilo Rubião (que eu sei ser uma influência importante para o autor) — o maravilhoso é um susto, um período de interrupção do cotidiano, depois do qual sempre sobram as suas marcas, mais ou menos profundas, às vezes destrutivas.

Acontece a despeito dos protagonistas de cada conto, os quais são meio que arrastados por acontecimentos incríveis que podem nascer da crença no fim do mundo até a vista de um gigante. Mas geralmente vem por conta de uma mulher. Mesmo para além das características mágicas ou inusitadas que apresentem, as mulheres do livro têm sempre algo de incontrolável, ponto de encontro do personagem masculino com uma outra forma de viver e de sentir, em amores que frequentemente duram o quanto dura o prazer ou o impulso (o amor, então, é também susto, interrupção?). Como se diz em um dos contos do livro, “Uma noite, uma década”: “Era a privação não do alimento, mas de todos os componentes que tornam a vida possível. Ele tinha em si a fome do outro”. Nesse sentido, a passagem pela fantasia ou pela paixão como que aumenta sucessivamente o valor das apostas, enreda e exaure cada vez mais.

“Pois o belo não é senão o início do terrível”, escreveu o poeta Rainer Maria Rilke, “e o admiramos tanto porque ele tranquilamente desdenha destruir-nos”. Ora, isso não estava dado no título, emprestado de um dos contos, o sangue entrelaçado à flor? “Cada anjo é terrível”. (Mas: “if every angel is terrible, why do you welcome them?”). É de se discutir o quanto Anelisa Sangrava Flores deixa de trazer nas figuras da mulher que compõe — o quanto essa maneira de perceber e descrever as personagens femininas ignora ou idealiza. Entre beatrizes de Dante e femme fatales mitológicas, estufadas de transcendente, porém degradáveis. Seria curioso perguntar ao escritor se ele capta outras facetas do feminino ou se pode voltar-se ao masculino, que em geral se subtrai ao neutro do narrador em primeira pessoa.

De resto, podemos dizer que o texto de Anderson é correto, se atêm à descrição das ações e dos sentimentos necessários, quase jornalisticamente. Talvez ganhasse algo com uma linguagem digamos com mais sangue e flor, não que precise ser um Mia Couto — nem sei bem o que eu quero com esse comentário. Enfim. Ele me disse que está escrevendo outro livro. Vamos ver a que surtos nos levará.

Curando Enfartos Três Minutos por Vez

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Mylene, this business isn’t here to hold your hand. Listen to me. What we do here, it’s fucking essential. It’s like oxygen. When a true artist sings, they don’t hold back nothing. And when you sing like that it raises the dead. The world’s dying of a thousand heart attacks. We heal them up three minutes at a time. It’s a goddamn public service what we do. That’s the only reason to make music. And if you can’t make music like that with doubts. It won’t work. You gotta know.

[The Get Down, 1ª temporada, episódio 3, “Darkness is Your Candle“; script]

Ficção > Vida e Vida > Ficção

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Community, 6ª temporada, episódio 1, “Ladders” (script):

— But a montage is what, Abed?

— It’s a movie apologizing for reality.

Desculpar-se pela realidade — a edição corrigindo o tédio cotidiano, limando repetições, cobrindo falhas.

No sentido inverso, temos uma declaração que Dmitri Nabokov, filho de Vladimir Nabokov, atribui ao pai, no prefácio de O Mago. Nela, o que ocorre na ficção é uma redução ou mesmo uma degradação da vida:

“Para o poeta em Nabokov, o veículo predileto era a experiência artística concreta ao invés da declaração abstrata. Entretanto, se alguém estiver à cata de exemplos de seu credo, o diálogo socrático em miniatura do conto de 1927 intitulado ‘O passageiro’ permite raro vislumbre da essência do seu caráter. ‘A vida é mais talentosa do que nós’, diz o primeiro personagem, o Escritor. ‘Como podemos competir com essa deusa? Suas obras são intraduzíveis, indescritíveis.’ Portanto: ‘Tudo que nos resta é tratar suas criações como um produtor de cinema trata um romance famoso, alterando-o a ponto de se tornar irreconhecível (…) com o único propósito de fazer um filme agradável que se desenrole sem qualquer empecilho, punindo a virtude no começo e o vício no fim, (…) com um fecho inesperado mas que resolva tudo (…). Achamos que o desempenho da Vida é muito impetuoso, muito irregular, que seu gênio é por demais indisciplinado. Para agradar a nossos leitores, extraímos dos romances transbordantes da Vida nossas pequenas e arrumadinhas histórias para benefício de crianças em idade escolar.'”

Vikings e Macbeth

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[Vikings, 2ª temporada, episódio 4, “Eye For an Eye“; script] Aparentemente, duas referências a Macbeth, de Shakespeare. A primeira: o padre apóstata Athelstan abre a Bíblia e vê a figura de Cristo crucificado sangrar; joga o livro ao chão em desespero, e debate as mãos tentando se limpar. Lady Macbeth também esfrega e lava suas mãos sem sossego, pois que as manchas do assassinato que incentivou não se apagam. A segunda, mais improvável: o protagonista, Ragnar Lothbrok, diz que um inimigo lhe roubou o sono, “has taken away my sleep”. Na peça shakesperiana, lemos que Macbeth matou o sono: “Glamis hath murdered sleep, and therefore Cawdor shall sleep no more” (Glamis e Cawdor são territórios sob seu comando). (Relacionado: escrevi sobre Macbeth aqui e aqui.)