Todas as Escolhas são Ruins

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[O Destino Bate à sua Porta, James M. Cain, p. 19-20]

“Vamos esquecer o Grego e cair fora. Vamos embora, e pronto.”

“Pra onde?”

“Qualquer lugar. Que diferença faz?”

“Qualquer lugar. Qualquer lugar. Sabe onde fica isso?”

“Por toda parte. Em qualquer lugar.”

“Nada disso. Fica num restaurante ordinário.”

“Não estou falando de restaurantes ordinários. Estou falando da estrada. É divertido, Cora. E ninguém conhece a estrada melhor do que eu. Conheço cada curva do caminho. E também sei como me virar na estrada. Não é isso o que queremos? Ser só dois vagabundos, pois somos assim mesmo?” (…)

“Não adianta, Frank. A estrada não leva a lugar nenhum, só a um restaurante ordinário. Restaurante pra mim e um emprego qualquer pra você. Num estacionamento imundo, onde vai usar uniforme (…).”

O oposto do otimismo de Alice no País das Maravilhas, em que se lê algo como “se não sabe para onde está indo, todos os caminhos são válidos”. Aqui, a liberdade do indefinido só leva a becos sem saída. Diz-se na orelha deste O Destino Bate à sua Porta que ele acabou inspirando O Estrangeiro, de Albert Camus — faz sentido: é de lá que extraímos o título deste post: todas as escolhas são ruins.

“A Guerra dos Criativos: Jornada aos Pilares”, Alec Silva

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O melhor de A Guerra dos Criativos: Jornada aos Pilares, de Alec Silva, é certamente sua originalidade, que se realiza em dois âmbitos. O primeiro, na forma: o livro une autoficção e literatura fantástica. É o próprio autor o protagonista, e os personagens com quem interage são seus conhecidos, ou são empréstimos das obras desses conhecidos, também escritores. Segundo, no universo. A história se passa em um mundo no qual a criatividade humana – a força de invenção de escritores, cientistas, pensadores – se efetiva de forma imediata em criaturas, objetos, controle dos elementos, formação de realidades físicas.

Creio que há nisso uma diferença significativa em relação a outros mundos de fantasia. Super-heróis, magos, vampiros – podem nos fascinar e podemos nos projetar neles, mas o dado básico é que somos inerentemente distintos. O super-poder, a magia, a maldição os destaca de nós. Mas em Guerra dos Criativos a fonte do poder é a imaginação. Somos da mesma matéria que os personagens, o que nos separa é uma potencialidade comum. O que você é capaz de imaginar? O quanto você é capaz de imaginar? É o exercício desse poder que lhe coloca entre os criativos, núcleo da trama, ou não.

Esses criativos se reúnem periodicamente para uma disputa. Cada qual recorre às suas referências, dispondo dragões contra robôs, golens contra vermes assassinos gigantes. É um universo que tem tudo para ser exuberante, na medida em que não há restrições do que criar; há aí a diversão do crossover, a fluidez do RPG de mesa. Parte disso, pelo menos para mim, se perde, porque Alec se restringe a descrições sumárias. Por exemplo: “gigantesca serpente negra com plumagens em tons variados de cinza e branco”. Sim, é o suficiente para expressar essa serpente, mas me falta senti-la, vê-la mais. Outro:

“(…) uma enorme criatura negra surgia. Primeiro surgiu parte da cabeça, com escamas muito salientes, e do pescoço alongado; a seguir vieram as garras colossais, que ajudaram o corpanzil a emergir. Segundos depois apareceram enormes asas reptilianas com algumas penas largas e compridas”.

Fora que seja grande (“enorme”, “muito salientes”, “alongado”, “colossais”, “corpanzil”, “enormes”, “largas e compridas”), visualizamos quase nada. Somos informados depois que se trata de um “dracogrifo”, e isso enxerta imagem à descrição. Em um certo nível, Alec escreve para um público já versado em literatura fantástica. Ele não precisa dizer, porque sabemos o que é, só precisa referenciar. Em sentido restrito, podemos afirmar que sua criação é enciclopédica, para usar um termo de Ítalo Calvino.

(Para saber disso com certeza seria preciso analisar mais, mas essa seria uma boa chave de interpretação do autor: é coerente com a sua atuação em vários gêneros e explica porque, como ele disse, não se interessa tanto por fantasia.)

Pois bem, esse evento esportivo entre criativos é interrompido por um grande vilão, que ameaça destruir o mundo. Para enfrentá-lo, os heróis viajam em direção ao inexplorado, para pedir auxílio aos deuses da sua realidade, os Lordes (o inimigo é um deles, decaído).  O caminho até lá será interessante principalmente por como questões autobiográficas se mesclam aos eventos fantásticos. Consequentemente, Guerra dos Criativos se mostra cada vez mais portadora de um tema central, a subjetividade.

Desde o foco na criatividade, que nos iguala a todos, isso já estava claro. A interioridade do sujeito é rica – esse é o ponto central. Até o fim da narrativa, com tons psicologistas, veremos que essa interioridade também é aterradora. Não só o que conseguimos extrair de nós e dar ao mundo, mas o que temos dificuldade de extrair de nós, o que nos arranca do mundo. O recalcado, segundo o conceito da psicanálise; o qual, essa disciplina afirma, sempre retorna. Com coragem e resistência, é preciso elaborar o nosso lado sombrio.

Guerra dos Criativos tem bons momentos com base nesse tipo de confronto, mas, outra vez, a linguagem prejudica um pouco o desenvolvimento das passagens em que se lida com as emoções. Há em algumas um romantismo arcaico – “ardia em meu peito [essa construção soa arcaica] a dor de tantas coisas, das perdas, das certezas e das incertezas, dos medos, do desespero” – e um sentimentalismo exagerado. Por exemplo:

“(…) porém não conseguia conter as lágrimas que deslizavam por sua face. Ela parecia condoer-se com cada ser que ardia naquele fogo cruel; evitava olhar, mas os sons eram o suficiente para atormentá-la – e não foi difícil vê-la se estremecer em agonia”.

“Que deslizavam por sua face” me soa também arcaico. A sucessão de referentes à dor (“lágrimas”, “condoer-se”, “cruel”, “atormentá-la”, “agonia”) enfastia, não aproxima. A narrativa, contudo, funciona, no geral. Principalmente em relação ao próprio Alec, pude vivenciar com alguma intensidade suas escolhas, retraimentos, vitórias e erros.

Assim, é possível com clareza ver quanto ao autor/protagonista como se dá essa divisão riqueza/sombra de que falamos. Alec parece reconhecer sua potência na capacidade de criar, de se maravilhar com o criado, de poder viver em mundos inventados. Com efeito, é essa a beleza posta em risco pelo vilão. Por outro lado, dentro dele há todas as “cargas clandestinas que fingimos não acumular com o tempo”: memórias, rancores…

É sintomático, nessa direção, um capítulo em que reaparece uma ex-namorada de Alec. Deslocado, dedicado apenas a esse encontro, sem precedentes ou consequências, e em que o protagonista alcança certa desforra. Este é um dos trechos em que mais fica claro como escrever Guerra dos Criativos foi ao autor um meio de reelaborar a própria vida; uma autoanálise, um psicodrama. A fantasia como performance de liberdade que dá, ao leitor e ao criador, surpreendentemente, ao fim da leitura, liberdade, de fato.

(Nessa autoanálise, mereceria uma discussão maior a figura da mulher: idealizada, vista pela ótica do fascínio, da hierarquia ou da transcendência; ou sensual e ameaçadora; ou – de forma oposta e complementar – em situação de sujeição. Atrás de tudo isso, ainda, claro, o sujeito, a sua masculinidade e como ele a encara – isso é evidenciado por como a história termina: um poder altamente destrutivo é mobilizado por ofensas feitas a tal personagem quanto à fidelidade da sua parceira e suas capacidades sexuais…)

Chegamos por esses caminhos à batalha final, e aí há, penso, outra diferença em relação a outros ápices de histórias de fantasia. Nem o vilão é tão importante – embora maligno, altamente poderoso, é parcamente construído – nem o herói. Há um herói? Alec assiste aos momentos finais da luta, de vários pontos de vista, mas destacado dela. Faz sentido. A interioridade é finalmente posta por completo à frente do sujeito. Alec cita o Mundo das Ideias de Platão como referência (um tanto inapropriado em termos filosóficos), mas se aproxima muito mais de Descartes, passando a limpo toda ideia que há em sua mente. A subjetividade deve decidir, exposto tudo, o que continuar, como prosseguir.

“Anelisa Sangrava Flores”, de Anderson Henrique

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O fantástico tem um prazo de validade? No livro de contos Anelisa Sangrava Flores, escrito pelo Anderson Henrique — mais ou menos como em “Teleco, o Coelhinho”, de Murilo Rubião (que eu sei ser uma influência importante para o autor) — o maravilhoso é um susto, um período de interrupção do cotidiano, depois do qual sempre sobram as suas marcas, mais ou menos profundas, às vezes destrutivas.

Acontece a despeito dos protagonistas de cada conto, os quais são meio que arrastados por acontecimentos incríveis que podem nascer da crença no fim do mundo até a vista de um gigante. Mas geralmente vem por conta de uma mulher. Mesmo para além das características mágicas ou inusitadas que apresentem, as mulheres do livro têm sempre algo de incontrolável, ponto de encontro do personagem masculino com uma outra forma de viver e de sentir, em amores que frequentemente duram o quanto dura o prazer ou o impulso (o amor, então, é também susto, interrupção?). Como se diz em um dos contos do livro, “Uma noite, uma década”: “Era a privação não do alimento, mas de todos os componentes que tornam a vida possível. Ele tinha em si a fome do outro”. Nesse sentido, a passagem pela fantasia ou pela paixão como que aumenta sucessivamente o valor das apostas, enreda e exaure cada vez mais.

“Pois o belo não é senão o início do terrível”, escreveu o poeta Rainer Maria Rilke, “e o admiramos tanto porque ele tranquilamente desdenha destruir-nos”. Ora, isso não estava dado no título, emprestado de um dos contos, o sangue entrelaçado à flor? “Cada anjo é terrível”. (Mas: “if every angel is terrible, why do you welcome them?”). É de se discutir o quanto Anelisa Sangrava Flores deixa de trazer nas figuras da mulher que compõe — o quanto essa maneira de perceber e descrever as personagens femininas ignora ou idealiza. Entre beatrizes de Dante e femme fatales mitológicas, estufadas de transcendente, porém degradáveis. Seria curioso perguntar ao escritor se ele capta outras facetas do feminino ou se pode voltar-se ao masculino, que em geral se subtrai ao neutro do narrador em primeira pessoa.

De resto, podemos dizer que o texto de Anderson é correto, se atêm à descrição das ações e dos sentimentos necessários, quase jornalisticamente. Talvez ganhasse algo com uma linguagem digamos com mais sangue e flor, não que precise ser um Mia Couto — nem sei bem o que eu quero com esse comentário. Enfim. Ele me disse que está escrevendo outro livro. Vamos ver a que surtos nos levará.