“Desmonte”, Juliana Moraes

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10/10. Solo de dança.

  • narrativa

A dançarina, no início do espetáculo, ressalta as circunstâncias de origem da obra: com seu companheiro gravemente doente, ela lia os diários do bailarino Vatslav Fomitch Nijinski, textos que retratam um processo de enlouquecimento. A coreografia parece então se inspirar no confronto com o corpo e no descontrole do corpo.

  • recursos

Quebra de expectativa — esse discurso inicial, endereçado ao público, que explica, que introduz a peça, é interrompido a meio caminho, substituído pela dança de espasmos no rosto. O efeito é maravilhoso, porque de alguma forma nos acostumamos com a racionalidade — com a forma equilibrada de falar, quase uma prestação de contas e, então… não mais. Esta é a quebra da doença e da loucura, perfeitamente exibida com uma ferramenta mínima. Elemento cenográfico — Ainda mais, ao longo dessa fala, a artista vai colocando um fone de ouvido nas orelhas, colando-o com fita, preparando-se. Em algumas peças, colocar um fone é paralelo ao abrir do som (supostamente ouvido) para a plateia. Aqui, não. O fone é o fechamento, a música que o louco escuta é só dele. Gestos significativos no não-significativo — no decorrer da dança, vemos um aceno, um tocar no peito a denotar comumente o falar de si, o referir-se ao sentimento, mas esses gestos se perdem no desarrazoado geral; são sobras, são restos de rotina, boiando. Instabilidade do estável — há um trecho em três momentos: perna erguida, trêmula, em posição difícil de manter; respiração arfante, forçadamente veloz e intensa; ambos somados, perna erguida e respiração. As primeiras informam a cada instante que não podem continuar para sempre; a soma das duas produz uma situação ainda mais absurda e não-manejável. Tudo aponta para o como é difícil manter o comum, o normal (nesse sentido, veja o comentário sobre José Saramago neste texto).

  • acesso

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