“Anelisa Sangrava Flores”, de Anderson Henrique

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O fantástico tem um prazo de validade? No livro de contos Anelisa Sangrava Flores, escrito pelo Anderson Henrique — mais ou menos como em “Teleco, o Coelhinho”, de Murilo Rubião (que eu sei ser uma influência importante para o autor) — o maravilhoso é um susto, um período de interrupção do cotidiano, depois do qual sempre sobram as suas marcas, mais ou menos profundas, às vezes destrutivas.

Acontece a despeito dos protagonistas de cada conto, os quais são meio que arrastados por acontecimentos incríveis que podem nascer da crença no fim do mundo até a vista de um gigante. Mas geralmente vem por conta de uma mulher. Mesmo para além das características mágicas ou inusitadas que apresentem, as mulheres do livro têm sempre algo de incontrolável, ponto de encontro do personagem masculino com uma outra forma de viver e de sentir, em amores que frequentemente duram o quanto dura o prazer ou o impulso (o amor, então, é também susto, interrupção?). Como se diz em um dos contos do livro, “Uma noite, uma década”: “Era a privação não do alimento, mas de todos os componentes que tornam a vida possível. Ele tinha em si a fome do outro”. Nesse sentido, a passagem pela fantasia ou pela paixão como que aumenta sucessivamente o valor das apostas, enreda e exaure cada vez mais.

“Pois o belo não é senão o início do terrível”, escreveu o poeta Rainer Maria Rilke, “e o admiramos tanto porque ele tranquilamente desdenha destruir-nos”. Ora, isso não estava dado no título, emprestado de um dos contos, o sangue entrelaçado à flor? “Cada anjo é terrível”. (Mas: “if every angel is terrible, why do you welcome them?”). É de se discutir o quanto Anelisa Sangrava Flores deixa de trazer nas figuras da mulher que compõe — o quanto essa maneira de perceber e descrever as personagens femininas ignora ou idealiza. Entre beatrizes de Dante e femme fatales mitológicas, estufadas de transcendente, porém degradáveis. Seria curioso perguntar ao escritor se ele capta outras facetas do feminino ou se pode voltar-se ao masculino, que em geral se subtrai ao neutro do narrador em primeira pessoa.

De resto, podemos dizer que o texto de Anderson é correto, se atêm à descrição das ações e dos sentimentos necessários, quase jornalisticamente. Talvez ganhasse algo com uma linguagem digamos com mais sangue e flor, não que precise ser um Mia Couto — nem sei bem o que eu quero com esse comentário. Enfim. Ele me disse que está escrevendo outro livro. Vamos ver a que surtos nos levará.

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