“A Guerra dos Criativos: Jornada aos Pilares”, Alec Silva

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O melhor de A Guerra dos Criativos: Jornada aos Pilares, de Alec Silva, é certamente sua originalidade, que se realiza em dois âmbitos. O primeiro, na forma: o livro une autoficção e literatura fantástica. É o próprio autor o protagonista, e os personagens com quem interage são seus conhecidos, ou são empréstimos das obras desses conhecidos, também escritores. Segundo, no universo. A história se passa em um mundo no qual a criatividade humana – a força de invenção de escritores, cientistas, pensadores – se efetiva de forma imediata em criaturas, objetos, controle dos elementos, formação de realidades físicas.

Creio que há nisso uma diferença significativa em relação a outros mundos de fantasia. Super-heróis, magos, vampiros – podem nos fascinar e podemos nos projetar neles, mas o dado básico é que somos inerentemente distintos. O super-poder, a magia, a maldição os destaca de nós. Mas em Guerra dos Criativos a fonte do poder é a imaginação. Somos da mesma matéria que os personagens, o que nos separa é uma potencialidade comum. O que você é capaz de imaginar? O quanto você é capaz de imaginar? É o exercício desse poder que lhe coloca entre os criativos, núcleo da trama, ou não.

Esses criativos se reúnem periodicamente para uma disputa. Cada qual recorre às suas referências, dispondo dragões contra robôs, golens contra vermes assassinos gigantes. É um universo que tem tudo para ser exuberante, na medida em que não há restrições do que criar; há aí a diversão do crossover, a fluidez do RPG de mesa. Parte disso, pelo menos para mim, se perde, porque Alec se restringe a descrições sumárias. Por exemplo: “gigantesca serpente negra com plumagens em tons variados de cinza e branco”. Sim, é o suficiente para expressar essa serpente, mas me falta senti-la, vê-la mais. Outro:

“(…) uma enorme criatura negra surgia. Primeiro surgiu parte da cabeça, com escamas muito salientes, e do pescoço alongado; a seguir vieram as garras colossais, que ajudaram o corpanzil a emergir. Segundos depois apareceram enormes asas reptilianas com algumas penas largas e compridas”.

Fora que seja grande (“enorme”, “muito salientes”, “alongado”, “colossais”, “corpanzil”, “enormes”, “largas e compridas”), visualizamos quase nada. Somos informados depois que se trata de um “dracogrifo”, e isso enxerta imagem à descrição. Em um certo nível, Alec escreve para um público já versado em literatura fantástica. Ele não precisa dizer, porque sabemos o que é, só precisa referenciar. Em sentido restrito, podemos afirmar que sua criação é enciclopédica, para usar um termo de Ítalo Calvino.

(Para saber disso com certeza seria preciso analisar mais, mas essa seria uma boa chave de interpretação do autor: é coerente com a sua atuação em vários gêneros e explica porque, como ele disse, não se interessa tanto por fantasia.)

Pois bem, esse evento esportivo entre criativos é interrompido por um grande vilão, que ameaça destruir o mundo. Para enfrentá-lo, os heróis viajam em direção ao inexplorado, para pedir auxílio aos deuses da sua realidade, os Lordes (o inimigo é um deles, decaído).  O caminho até lá será interessante principalmente por como questões autobiográficas se mesclam aos eventos fantásticos. Consequentemente, Guerra dos Criativos se mostra cada vez mais portadora de um tema central, a subjetividade.

Desde o foco na criatividade, que nos iguala a todos, isso já estava claro. A interioridade do sujeito é rica – esse é o ponto central. Até o fim da narrativa, com tons psicologistas, veremos que essa interioridade também é aterradora. Não só o que conseguimos extrair de nós e dar ao mundo, mas o que temos dificuldade de extrair de nós, o que nos arranca do mundo. O recalcado, segundo o conceito da psicanálise; o qual, essa disciplina afirma, sempre retorna. Com coragem e resistência, é preciso elaborar o nosso lado sombrio.

Guerra dos Criativos tem bons momentos com base nesse tipo de confronto, mas, outra vez, a linguagem prejudica um pouco o desenvolvimento das passagens em que se lida com as emoções. Há em algumas um romantismo arcaico – “ardia em meu peito [essa construção soa arcaica] a dor de tantas coisas, das perdas, das certezas e das incertezas, dos medos, do desespero” – e um sentimentalismo exagerado. Por exemplo:

“(…) porém não conseguia conter as lágrimas que deslizavam por sua face. Ela parecia condoer-se com cada ser que ardia naquele fogo cruel; evitava olhar, mas os sons eram o suficiente para atormentá-la – e não foi difícil vê-la se estremecer em agonia”.

“Que deslizavam por sua face” me soa também arcaico. A sucessão de referentes à dor (“lágrimas”, “condoer-se”, “cruel”, “atormentá-la”, “agonia”) enfastia, não aproxima. A narrativa, contudo, funciona, no geral. Principalmente em relação ao próprio Alec, pude vivenciar com alguma intensidade suas escolhas, retraimentos, vitórias e erros.

Assim, é possível com clareza ver quanto ao autor/protagonista como se dá essa divisão riqueza/sombra de que falamos. Alec parece reconhecer sua potência na capacidade de criar, de se maravilhar com o criado, de poder viver em mundos inventados. Com efeito, é essa a beleza posta em risco pelo vilão. Por outro lado, dentro dele há todas as “cargas clandestinas que fingimos não acumular com o tempo”: memórias, rancores…

É sintomático, nessa direção, um capítulo em que reaparece uma ex-namorada de Alec. Deslocado, dedicado apenas a esse encontro, sem precedentes ou consequências, e em que o protagonista alcança certa desforra. Este é um dos trechos em que mais fica claro como escrever Guerra dos Criativos foi ao autor um meio de reelaborar a própria vida; uma autoanálise, um psicodrama. A fantasia como performance de liberdade que dá, ao leitor e ao criador, surpreendentemente, ao fim da leitura, liberdade, de fato.

(Nessa autoanálise, mereceria uma discussão maior a figura da mulher: idealizada, vista pela ótica do fascínio, da hierarquia ou da transcendência; ou sensual e ameaçadora; ou – de forma oposta e complementar – em situação de sujeição. Atrás de tudo isso, ainda, claro, o sujeito, a sua masculinidade e como ele a encara – isso é evidenciado por como a história termina: um poder altamente destrutivo é mobilizado por ofensas feitas a tal personagem quanto à fidelidade da sua parceira e suas capacidades sexuais…)

Chegamos por esses caminhos à batalha final, e aí há, penso, outra diferença em relação a outros ápices de histórias de fantasia. Nem o vilão é tão importante – embora maligno, altamente poderoso, é parcamente construído – nem o herói. Há um herói? Alec assiste aos momentos finais da luta, de vários pontos de vista, mas destacado dela. Faz sentido. A interioridade é finalmente posta por completo à frente do sujeito. Alec cita o Mundo das Ideias de Platão como referência (um tanto inapropriado em termos filosóficos), mas se aproxima muito mais de Descartes, passando a limpo toda ideia que há em sua mente. A subjetividade deve decidir, exposto tudo, o que continuar, como prosseguir.

“Wednesday with Goddard”, Nicolas Ménard

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10/10. Curta-metragem, animação.

  • narrativa

O protagonista decide ir em busca de Deus. Procura seu telefone na lista telefônica, cava a terra, segue até as nuvens — e o encontra. É embasbacado pela experiência.

  • recursos

Contraste de estilos — os personagens são desenhados simploriamente, com pés, mãos, cabeças enormes, com cores fortes, opostos a um cenário com colagens realistas e deslocadas (plantas, pássaros, ursos, como de livros de biologia; esferas como de livros de geometria). A sensação é de estranheza contínua. Talvez essa construção dê uma potência simbólica ao curta: nós, carentes de definição em um mundo ultradefinido porém absurdo, indo em direção a algo que abala toda definição.

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short of the week

Corpo = Matéria-Prima

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Trecho de “Bela, Engajada e do Laiá, Laiá“, de Armando Antenore, na piauí:

“Uma, duas, três…” Andréia Rocha perdeu as contas de quantas tatuagens possui. Precisa conferir. “Treze!” Para ela, corpo e arte se confundem. Durante dezesseis anos, dedicou-se intensamente às aulas de balé clássico. Também praticou sapateado, jazz, flamenco e butô, embora com menos regularidade. “Por causa da dança, enxergo os membros inferiores e superiores, o torso e a cabeça como matérias-primas que devem ser moldadas e exibidas.”

Esse aprendizado advindo da dança não se manifesta só nas tatuagens, mas no ato político de sair de top less no último Carnaval — é a história que o Antenore narra.

“Antígona”, Luciana Lyra

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7/10. Leitura dramática.

  • narrativa

Texto do dramaturgo grego Sófocles, traduzido por Millôr Fernandes. Bem executada, transmite a força do texto. Na história, Antígona se revolta pelo direito de enterrar seu irmão, ato proibido pelo rei, Creonte, por ter ele, o irmão, morrido como inimigo de guerra. Por um lado — é uma leitura comum — trata-se do confronto do indivíduo com o Estado ou de uma representação da autonomia e força femininas. Creio que são lados possíveis, mas menores. O tema central é da precedência da lei divina sobre a dos homens. É esse o argumento de Antígona, é isso que reconhece Creonte.

  • recursos

Olhos nas folhas — toda leitura dramática implica em um certo autismo dramatúrgico, os atores falando uns com os outros olhando para o papel? Figurino — o coro veste calça e casaco sociais e pretos; sem sapatos, tem os pés vermelhos (as mãos também? Não me lembro) de terra? De sangue? Ao mesmo tempo formais e deslocados, regras de sociabilidade e metonímia de uma vivência natural (forço um pouco; tudo isso poderia ser mais bem desenvolvido em uma peça de fato): reforça sutilmente elementos centrais da forma e do conteúdo da peça. Trilha sonora — foram usados instrumentos de percussão de origem africana, o que dá um tom “originário” à representação, mas não sei se acrescenta ou se integra à encenação realmente. Talvez a referência africana pudesse ser aprofundada, em uma subversão maior da obra de Sófocles.

Você é Bom? Você é Corrupto?

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[Vikings, temporada 3, episódio 5, “The Usurper“; script]

Um diálogo em que os personagens não se encaram, não retiram os seus olhos dos jogos da corte, e acabam postulando uma ética tensa, contraditória, dialética:

— Do you think you’re a good man?
— Yes.., I think so… Are you a good man?
— Yes… I think so. Are you corrupt?
— Oh, yes. Are you?
— Uhum…

A bondade como especulação, a corrupção como certeza. Estou convicto de que agirei em meu benefício; suponho que agirei em nome de um ideal. Ou: a bondade concomitante à corrupção; ao passo em que se creem aderentes a certos princípios éticos, cumpridores de certas atividades ou sentimentos que os descrevem como “bons”, sabem-se corruptos, capazes de negar sempre que útil o “ser bom”.

“Desmonte”, Juliana Moraes

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10/10. Solo de dança.

  • narrativa

A dançarina, no início do espetáculo, ressalta as circunstâncias de origem da obra: com seu companheiro gravemente doente, ela lia os diários do bailarino Vatslav Fomitch Nijinski, textos que retratam um processo de enlouquecimento. A coreografia parece então se inspirar no confronto com o corpo e no descontrole do corpo.

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Quebra de expectativa — esse discurso inicial, endereçado ao público, que explica, que introduz a peça, é interrompido a meio caminho, substituído pela dança de espasmos no rosto. O efeito é maravilhoso, porque de alguma forma nos acostumamos com a racionalidade — com a forma equilibrada de falar, quase uma prestação de contas e, então… não mais. Esta é a quebra da doença e da loucura, perfeitamente exibida com uma ferramenta mínima. Elemento cenográfico — Ainda mais, ao longo dessa fala, a artista vai colocando um fone de ouvido nas orelhas, colando-o com fita, preparando-se. Em algumas peças, colocar um fone é paralelo ao abrir do som (supostamente ouvido) para a plateia. Aqui, não. O fone é o fechamento, a música que o louco escuta é só dele. Gestos significativos no não-significativo — no decorrer da dança, vemos um aceno, um tocar no peito a denotar comumente o falar de si, o referir-se ao sentimento, mas esses gestos se perdem no desarrazoado geral; são sobras, são restos de rotina, boiando. Instabilidade do estável — há um trecho em três momentos: perna erguida, trêmula, em posição difícil de manter; respiração arfante, forçadamente veloz e intensa; ambos somados, perna erguida e respiração. As primeiras informam a cada instante que não podem continuar para sempre; a soma das duas produz uma situação ainda mais absurda e não-manejável. Tudo aponta para o como é difícil manter o comum, o normal (nesse sentido, veja o comentário sobre José Saramago neste texto).

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“Homens de Solas de Vento”, Cia. Solas de Vento

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7/10. Teatro sem palavras, baseado em gesto e expressão, com recursos do circo.

  • narrativa

Lembra O Terminal — o par de protagonistas também está travados em um aeroporto por conta de algum processo burocrático. Dentro dos limites em que estão, criam domesticidades provisórias. Os personagens se afetuam com o tempo, e acabam por povoar o próprio cotidiano com elementos do cotidiano do outro.

  • recursos

A estrutura circense de acrobacia — os trapézios e outros balanços — é relida com malas suspensas (uma à esquerda, outra à direita do palco, cada qual para um dos atores), uma vassoura amarrada por panos (de um lado), uma rede (do outro). Subir, quase cair, desabar, transitar de uma mala à outra: a cenografia dá chances de exibir as habilidades acrobáticas e fomenta pequenas cenas que perfilam os personagens e avançam a história (como a tragicomédia é toda suspensa no ar, me lembra “parece tão regular voltar pra jantar todos os dias, mesmo que eu sinta a mesa se equilibrar nos fios de alta tensão“). O uso da luz — o holofote pode isolar, a cada vez, um dos personagens para uma cena solo; o apagamento da luminosidade leva o olhar ao outro de imediato. Funciona como, no cinema, a alteração de foco entre frente e fundo. No fim, foi usado com ainda mais eficácia: um ator iluminado, outro de costas, na sombra; o segundo era só a mão burocrática, impaciente, impessoal.

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“Experiência 3”, Key Sawao

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9/10. 2015. Exibido no Itaú Cultural em 9/3/2017.

  • narrativa

Dançarina (Key Sawao) e baterista (Mariá Portugal) improvisam no palco. Por vezes, gesto e batida se encontram, por outras, divergem. O descompasso e o compasso entre ambos vai levando o espetáculo, conforme alterna a nossa atenção entre eles. Segundo a resenha do espetáculo, trata-se de “estudos de movimento” de Sawao.

  • recursos

Portugal cria tantos ritmos violentos, quebrados, que preenchem a sala silenciosa com tumulto quanto explora os ruídos inesperados do raspar de pratos, do batuque sem baquetas (como que mais flácido). Sawao pulsa, serpenteia, pára. A linha coreográfica abrange algumas repetições (que não chegam a ser constantes de fato), elementos ideográficos feitos de gesto, digamos, que emergem e voltam a emergir sem criar padrão. Ambas menos ou mais do que trazer sentidos demarcam, com corpo e instrumento, intensidades.

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Vimeo (trecho)